09/02/2010

Ghetto reggae Belém

O reggae é um estilo de música originário da Jamaica que traz consigo um conjunto de filosofias e pensamentos que então em harmonia mente e alma, Bob Marley, cantor e compositor é o ícone deste estilo musical, uma das características que podem caracterizar o reggae é a critica social, como por exemplo: cantar, a desigualdade, o preconceito, a fome e muitos outros problemas sociais para tentar desviar os olhos do povo para isto, um modo de alertar e incentivar o povo a se mobilizar contra seus problemas.

E para quem acha que Belém é o ritmo apenas do brega e do carimbó está enganado, a capital paraense está entre as cidades brasileiras onde o movimento reggae é mais difundido. Temos locais específicos que tocam reggae, onde DJs conhecidos nacionalmente e bandas de excelente qualidade agitam o público formado, em grande maioria, por jovens.

Em Belém, o movimento do reggae surgiu há mais de 30 anos, tendo como um dos precursores o mestre Ras Alvin, ele se reunia com amigos em sua própria casa daí fundaram a primeira casa de reggae em Belém, a qual recebeu o nome de "Toca do reggae". Seu Ras Alvin até hoje possui uma barraca de discos no centro da cidade, onde se encontram verdadeiras relíquias do ritmo jamaicano.

Na década de 90 surgiram vários grupos de reggaes, preocupados com a questão social, grupos esses formados por jovens da periferia de Belém. Eles atuam em suas áreas em parceria com os centros comunitários e movimentos sociais, principalmente no combate ao racismo, são seguidores do que dizia Bob Marley:

"Não preciso ter ambições. Só tem uma coisa que eu quero muito: quero que a humanidade viva unida... Negros e brancos, todos juntos."

"Enquanto cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos haverá guerra."

Este é o ponto comum entre os regueiros de Belém com os do Brasil e do mundo: a filosofia reggae, de combater a discriminação racial, pregando a fraternidade entre os seres humanos, respeitando sua diferença racial e principalmente social, tentando mudar o contexto de abandono pelos governantes.

Desta maneira, o reggae está enraizado na cultura paraense, assim como o carimbó e outros ritmos que podem ser ouvidos por onde se passa. A terra que nos deu vários artistas como Pinduca, Calypso, Wanderley Andrade, dentre outros, começa a despertar também para o Reggae. Hoje as festas de Reggae são umas das mais procuradas nos fins de semana. As primeiras casas de shows e bares que tocavam Reggae foram: Espaço do Reggae, Coisa de Negro, dentre outros. Atualmente os lugares mais visitados são: Porto Solamar, Mormaço, Açaí Biruta Bar, Baiúca, Rainha Bar, Coco Verde, Casa Velha.

Em todos estes lugares a estrutura, o cenário, nos remete a um estilo rústico – palafita, localizados de frente para o Rio onde o pôr do sol é um espetáculo a mais para quem aprecia o reggae. O público tem uma característica singular, é uma formação híbrida de pessoas de várias origens, classes sociais e raça, todos iguais no amor e no sentimento de alegria.

Um no estilo de música surgiu nas rádios paraenses a mais de 20 anos, dentre as bandas mais tocadas desde essa época até os dias atuas são: "Nego Jô e Leões de Soweto" (primeira Banda de Reggae da região), "Six Marley", "Holly Pype", "Sevilha", "Cristal Reggae", "Amazon Java", "Gaia na Gandaia", "JAHFFA REGGAE", "Kayamakan", "Bris Zaboa", "Yemanjah Roots" entre outras.

Uma curiosidade muito grande é que a maioria dessas bandas já possui algumas musicas de autorias próprias apesar de tocarem musicas internacionais e traduções.

Além das bandas locais Belém já recebeu (e até hoje recebe) grandes nomes do Reggae conhecidos mudialmente como: Culture, Eric Donaldson, Inner Circle, Ziggy Marley & Melody Makers, Mighty Diamonds, Ijahman, The Gladiators, Clinton Fearon, Larry Marshall, Alpha Blondy, entre outros. Um dos shows mais esperados em 2009 aconteceu no dia 15 de novembro, o "príncipe" jamaicano Gregory Isaacs dividiu o palco com a banda Norte Americana SOJA (soldiers of jah army).

Estilo e vocabulário dos Regueiros em Belém

Uma tribo urbana é uma espécie de pacote de gosto musical, ídolos, roupas e acessórios. As pessoas que curtem o estilo reggae são conhecidas como regueiras e se mostram aparentemente calmas, cools, estilosas, etc. Geralmente os regueiros usam roupas e acessórios que tenham as cores do reggae, vermelho, verde, preto e amarelo. As mulheres geralmente usam saias longas e camisetas no estilo hippie ou indianos, não diferentes, estão os homens que se vestem no mesmo estilo.

Os acessórios tanto masculinos, quanto femininos são confeccionados por artesões, com matérias primas da natureza, como sementes, pedaços de madeira, penas de aves e mais a criatividade do artesão. Outra característica dos regueiros são os dreads, bolos cilíndricos de cabelo que aparentam "cordas" presas no topo da cabeça.

O importante é acima de tudo se sentir bem, os regueiros usam roupas soltas, que deêm liberdade no movimento para dançar e que sejam confortaveis, as pessoas do reggae não tem preconceitos, estão mais preocupadas em se divertir e curtir o momento.

O reggae é muito mais do que vestir uma roupa temática, ir a um show ou ter dreads, o importante é ter atitude, carater e seguir a filosofia reggae, lutando principalmente contra o preconceito social e racial.

Como em outras tribos, os regueiros também possuem um vocabulário próprio, algumas palavras podem ser facilmente compreendidas, mas outras só mesmo quem participa do movimento sabe seu significado. A exemplo temos, Jah (Deus), rainha (regueira), pedras (musicas antigas), dreadlocks (tranças no cabelo), irie (legal), yaga yaga (saudação), entre outros.

18/01/2010

Tratamento virtual

Desrespeito e descaso com a saúde pública em Ananindeua
Um fato no mínimo desrespeitoso aconteceu ao fim da noite do último domingo, 17, na Unidade de Urgência e Emergência da Cidade Nova VI, em Ananindeua (PA). Enquanto pacientes esperavam na fila para serem atendidos a enfermeira chefe, Ivânia Carvalho, acessava o orkut no computador da recepção - a máquina é usada para emissão de fichas para pronto-atendimento. Indignada com a situação a acompanhante de uma paciente que estava com febre, dor no corpo e PA medindo 22X10 mmHg, cobrou agilidade no atendimento e respeito para com as pessoas que estavam ali.
O bate boca durou cerca de uns três minutos e mesmo depois de terminada a confusão, a enfermeira chefe debochava dos demais pacientes que aguardavam a emissão de suas fichas para serem atendidos, entre elas uma criança de dois anos de idade que estava com infecção intestinal. O médico de plantão, Paulo Roberto Guedes, não comentou nada a respeito do conflito que aconteceu na recepção.
Por telefone com a ex-secretaria de saúde de Ananindeua, Débora Crespo, disse que não sabia que os computadores da recepção da Unidade tinham acesso a internet, muito menos que estava permitido o acesso a sites de relacionamento. Ela completou dizendo que apenas os computadores instalados na diretoria das unidades é que devem ter acesso a rede mundial de computadores por causa do serviço de intranet.
Na tarde desta segunda-feira, a Secretaria Municipal de Saúde de Ananindeua emitiu nota ao jornal O Liberal dizendo que a denuncia se tratava de uma grande mentira e que existe apenas um computador instalado na recepção da Unidade e que nenhum funcionário está autorizado a acessar a internet.
A família ainda não decidiu se vai levar o caso adiante, uma vez que a melhor alternativa seria a intervenção do Ministério Público e seriedade das Autoridades Governamentais.

25/12/2009

Hoje a noite é bela

O dia parecia ser tão comum como outro qualquer, na verdade parecia ser sábado, tirando o tumultuado comércio – shoppings e feiras – e o trânsito. No céu sinais de chuva que veio com pouca intensidade. O 24 de dezembro 2009 não foi capaz de me deixar com espírito natalino, mesmo assim tive o melhor Natal dos últimos tempos, fiquei em casa numa singela confraternização familiar.

Antes da meia noite um ato muito bonito raro de se ver hoje: todos se deram a mão e finalmente, em clima de oração, todos puderam expor sentimentos, fazer pedidos, pedir perdão e desabafar sentimentos escondidos pela correria do dia a dia. Filha pediu perdão para a mãe, mãe pediu pelos filhos e todos agradeceram por aquele momento juntos e por estarem juntos apesar das diferenças.

Acredito que este é o verdadeiro espírito de Natal que o Menino Jesus pede que sigamos. Rezar foi... um ato tão simples em que todos puderam de fato renovar o espírito e ver tudo o que conseguiram ao longo do ano que passou. Natal é deixar de lado a preocupação com o que vestir ou com o que dar de presente, é refletir se as sementes que plantamos em 2009 vão se gerar bons frutos em 2010, é pensar no ser humano que está bem do nosso lado e fingimos não enxergar os problemas pelos quais ele pode estar passando.

Natal é muito mais que a simbologia do nascimento do Cristo que vai morrer aos 33 anos por nós, para mudar o sentido da vida da humanidade.

Feliz Natal!

16/12/2009

Jornalismo tem disso

A situação é de extrema miséria. Num cenário que faz até um insensível se comover diante de tanta pobreza, apesar do aspecto rural a comunidade fica em área urbana, no final da passagem uma casa feita de madeira cuja escada de apenas dois degraus na porta de entrada se desmanchou quando fui entrar na residência. Ali mora a Dayse com seus três filhos e mais a sua tia, dona Sandra. A renda desta família é de 200 reais por mês.
Quase vizinha a Dayse mora a dona Maria Célia com seus quatro filhos e uma renda de 140 reais por mês. Esta família mora em um barraco, o chão é de terra pisada, não tem banheiro, nem geladeira, nem guarda roupa ou qualquer outro móvel e eletrodoméstico que proporcione algum tipo de conforto. Para cozinhar, o jeito é recorrer ao fogão a lenha que está se desmanchando no quintal.
Antes de conhecer a Dayse e Maria Célia conheci o seu Raimundo, um pai de família que está sem trabalhar a mais de dois anos devido a uma cirurgia que fez no coração. Ele se chora diante da impossibilidade de não mais poder sustentar a família como fez por mais de 20 anos. Um laudo médico assinado pelo cardiologista, Raimundo Tadeu Resque, comprova que o seu Raimundo não pode trabalhar, mas o juiz federal substituto da 7ª Vara, Sérgio de Norões Milfont, negou o pedido de aposentadoria dele.
Lamento não ter imagens do local para mostrar esta ou estas situações que pude conhecer de perto durante uma reportagem que fiz no mês passado quando ainda trabalhava na TV. A matéria seria exibida no Público na TV e tinha por objetivo mostrar as comunidades carentes que iriam receber cestas básicas ofertadas pelo radialista Jefferson Lima, então apresentador do programa, após o seu aniversário. Quando recebi a pauta a ordem do chefe, que não é jornalista, era uma só: a matéria tem que ser apelativa, faça os entrevistados chorarem.
Que ódio eu senti! Não gosto de fazer da pobreza, da miséria, uma indústria midiática para conseguir audiência. Para quê espetacularizar as mazelas destas pessoas? Já não basta a necessidade que elas enfrentam diariamente? Ainda que fosse para sensibilizar, mas que apelasse para trazer benefícios àquelas pessoas, mostrar o descaso do poder público... e não promover um fulano que será candidato a deputado no ano que vem.
O prazo de entrega para estas tais cestas básicas encerra dia 20 de dezembro, conforme um dos assessores de Jefferson anunciou. A esta altura a pergunta que não quer calar é:
-Será que estas famílias da comunidade Primavera, no distrito de Outeiro, já receberam as cestas básicas?
Quatro dias depois, na festa de aniversário do radialista, tive a oportunidade de entrevistar a governadora, Ana Júlia Carepa, e comentei com ela um pouco da vida destas pessoas, queria saber quais soluções estariam sendo criadas para atender a necessidade destas famílias e como resposta recebi um discurso político já em ritmo de campanha para reeleição. De fato, eu não esperava outra coisa e também não podia criticar o governo por motivos institucionais - digamos assim.
Cumpri a pauta, não gostei ter que fazer a Dayse com o filho no colo chorar... o seu Raimundo... só me resta pedir desculpas por isto, espero poder ajudá-los de uma maneira digna num futuro próximo!

15/12/2009

Barbadianos na Amazônia

Este trabalho apresenta os contextos históricos e culturais sobre a imigração dos negros do Caribe Inglês para a região norte. Denominados de barbadianos, vieram para Belém no início do século XX, passando a construir um novo contexto sócio-cultural, eles contribuíram para o crescimento econômico, bem como, participaram efetivamente como mão-de-obra para construção da cidade, nos âmbitos de infra-estrutura e transporte. Por meio de pesquisas historiográficas, de campo e a realização de entrevista com descendentes de barbadianos, neste trabalho consta principalmente informações baseadas na tese de mestrado da antropóloga Maria Roseane Corrêa Pinto Lima, da Universidade Federal do Pará (UFPA), e também nas pesquisas levantadas por uma estudante de história e descendente de barbadianos, Karina Barroso da Silva, para o seu Trabalho de Conclusão de Curso que será defendido agora no final do ano.

Pesquisa Historiográfica

A pesquisa historiográfica foi realizada através de artigos científicos, jornais, revistas culturais e sites relacionados à imigração dos barbadianos na região norte, bem como, em Belém. Também procuramos estabelecer contato com descendentes de barbadianos e encontramos uma estudante de história cujos ancestrais são barbadianos e ela não se considera uma barbadiana, entretanto tem se dedicado a estudar o processo migratório de seus antepassados e perda da identidade deles ao se considerarem brasileiros.

Barbadianos é o termo atribuído aos negros estrangeiros vindos das áreas de colonização inglesa (Barbados), localizadas no Caribe. O processo de imigração ocorreu na região norte, nas cidades de Belém, Porto Velho, entre outras cidades da Amazônia.

O termo "barbadiano" foi empregado a estes imigrantes não somente como uma forma de indicar a sua origem ou nacionalidade destes, mas também como uma forma de identificação global, atribuída aos negros estrangeiros, não introduzidos aqui como escravos, que vieram, desde o início do século XX.

Uma massa de operários de diferentes países migrou para a região amazônica para a construção da estrada de ferro Madeira Mamoré (também conhecida como a Ferrovia do Diabo) bem como, para outras áreas, como Belém, na construção da infra-estrutura, do comércio e do transporte. Vale ressaltar que a vinda dos negros de Barbados se deu em um contexto diferente da trazida de negros da África, os barbadianos representaram uma mão de obra qualificada. E uma cultura completamente diferente, a começar pelo próprio fenótipo, pois o negro vindo das colônias inglesas eram diferentes dos africanos, a cor dos olhos eram claras, o nariz era mais afinado, podemos até arriscar dizendo que eram negros com "traços" de "branco".

Os barbadianos eram procedentes de diversas localidades centro-americanas: Barbados, Trinidad, Jamaica, Santa Lúcia, Martinica, 13 São Vicente, Guianas, Granada, e outras ilhas das Antilhas. Introduzindo uma imigração diferenciada, composta por negros diferentes dos descendentes de escravos africanos, por seus nomes, idioma e condições sociais.

Entrevista com Karina Barroso da Silva – estudante de história da UFPA, descendente de barbadianos.

Como você avalia a imigração barbadiana na Amazônia?

A presença dos imigrantes barbadianos no Brasil, em especial Belém do Pará, é fato que merece ser observado com esmero. Quando pensamos nos diversos fluxos migratórios para a região amazônica logo lembramos da fase áurea da borracha com toda a sua explosão sócio-econômica e cultural, e a presença desses imigrantes tão enigmáticos.

Pensamos primeiramente no choque cultural, as mulheres negras com seus chapéus e seus vestidos bem cortados, os homens que vieram para trabalhar fossem na Ferrovia Madeira Mamoré ou nas firmas inglesas aqui estabelecidas e que aqui tentaram manter seus costumes e concomitantemente se integrar a sociedade. Mas desconstruindo o imaginário de que muitos barbadianos vieram para trabalhar nas firmas inglesas, vemos também que muitos vieram para trabalhar em serviços pesados e que muitas barbadianas figuravam entre as melhores e mais caras lavadeiras da cidade.

Você é descendente de barbadiano. Mas hoje percebemos que a cultura brasileira nos remete a várias identidades. Karina, como você se identifica?

Eu enquanto descendente de barbadianos, gostaria de poder elencar inúmeros traços identitários com os quais pudesse afirmar que há muito de barbadiano em mim. Contudo infelizmente só posso afirmar que da minha descendência ficou somente, e afirmo sobre este prisma que felizmente, o conhecimento da história da minha família, Os Mottley's.

Mas a mim, não restou nem o sobrenome, pois minha bisavó, que nasceu em Barbados em 1916 e que faleceu em janeiro deste ano, com o tempo viu seu sobrenome dar lugar aos sobrenomes dos maridos de suas netas, presenciou também o abrasileiramento de seu sobrenome de Mottley para Mota e por fim não teve o prazer de conversar com seus filhos, netos e bisnetos em sua língua natal. Durante a minha pesquisa conheci um senhor cujo sobrenome é Reis e o de seu pai era King.

Além das alterações de sobrenomes, o que mais mudou na cultura barbadiana?

Não acredito que a valorização da cultura barbadiana, no caso da minha família ou de outras famílias seja querer retomar de onde eles pararam, quando deixaram de freqüentar a Igreja Anglicana, quando deixaram de enfatizar sua ascendência barbadiana pois o que aconteceu com Os Mottley's foi o que aconteceu com muitas famílias de imigrantes barbadianos e antilhanos, se incorporaram a sociedade, estabeleceram outros laços, o inglês deu espaço ao português, os pratos típicos cedeu lugar as comidas regionais e o anglicanismo deu lugar ao catolicismo, igrejas neopentencostais e a religiões afro-brasileiras.

Você encontrou alguém nas gerações atuais, digamos assim, que ainda conserve a cultura barbadiana?

Todavia é com muita alegria que ainda vejo muitas famílias de descendentes de barbadianos ainda freqüentando a Igreja Anglicana, no domingo pela manhã, que me perguntaram com educação procurando estabelecer o laço que os identifica quanto barbadianos : "Do you speak english?" E eu respondi com um sorriso sem graça: No...

Para a gente encerrar, não podia deixar de perguntar sobre a sua pesquisa, o que você espera alcançar com ela?

Podemos observar que agora há mais de um século da imigração barbadiana para Belém, se não ficaram muitas famílias que afirmam meus avós, meu bisavós eram barbadianos, mas ficaram as memórias dessas pessoas, fossem, quando falavam inglês ou até mesmo quando falavam " naquele tempo era assim..." "Naquele tempo quando meus avós vieram para Belém, as ruas, as pessoas eram...". O que podemos fazer e escutar, compreender e tentar "resgatar" essas memórias para que possamos conhecer o nosso passado e assim tentar preencher estas lacunas.

Bibliografia

LIMA, Maria Rosane. Ingleses Pretos, Barbadianos Negros, Brasileiros Morenos? Identidades e Memórias (Belém, Século XX e XXI). Dissertação de mestrado, UFPA. 2004

14/12/2009

Televizinha – A história da TV no Pará

Resumo
A inauguração da TV Marajoara – Canal 2, em 1961, marcou o começo da modernidade em Belém. A emissora tinha como objetivo exaltar e promover a cultura regional, este era o sonho de Frederico Barata, seu fundador e pai da televisão paraense. O Canal 2 foi a maior emissora de televisão que já existiu no Pará, nunca nenhum veículo televisivo local produziu tantos programas e novelas quanto a TV Marajoara. Tudo feito ao vivo, contando com pouca tecnologia, mas com um imenso talento de profissionais.
Depois dela vem a TV Guajará – Canal 4, em 1967, cujo dono foi Lopo de Castro e em 1976 a TV Liberal – Canal 7 que inicia uma nova fase na história da televisão paraense. A transmissão de programas "enlatados" tornou os produtores locais em consumidores de programas nacionais, desvalorizando a cultura regional.

Este artigo é parte de um estudo sobre a chegada da televisão no Pará, em especial da trajetória da TV Marajoara inaugurada na década de 1960, pertencente aos Diários Associados, que inaugurou a era da televisão no Estado. A pesquisa consiste, principalmente, na obtenção de depoimentos e entrevistas realizadas com profissionais que trabalharam no extinto Canal 2 onde tudo era feito ao vivo com talento, paixão, improviso e sem o recurso do videoteipe; e também numa visita técnica realizada na TV Cultura do Pará, em 18 de maio de 2009, na era da rede mundial de computadores, para conhecer as instalações e coletar dados para termos uma base de como se dá o funcionamento desta máquina mágica chamada televisão.
O nosso estudo consistiu em conversar com artistas, jornalistas, apresentadores e realizadores que viveram o considerado laboratório da televisão paraense e comandaram programas que serviram de inspiração para criação de programas exibidos em rede nacional. Também conversamos com jornalistas, produtores, técnicos e cinegrafistas que trabalham fazendo televisão de hoje, que está em fase de transição para a digitalização, com recursos tecnológicos sofisticados que chegam a gerar imagens até via satélite e ainda contam com a rede mundial de computadores.
Ao longo do desenvolvimento deste trabalho percebemos a semelhança da história da televisão paraense com a história da televisão brasileira. A primeira emissora inaugurada no Brasil foi a TV Tupi, pertencente aos Diários Associados, de Assis Chateaubriand, e no Pará foi a TV Marajoara que era filiada a Rede Tupi, inclusive o próprio indiozinho que era logo da Tupi era utilizada pela Marajoara. Outra comparação é que a história da televisão no Brasil é estudada em dois momentos: antes da inauguração da TV Globo (fase dos Diários Associados e TV Tupi) e pós TV Globo, de Roberto Marinho, marcado pela entrada de capital estrangeiro; aqui no Pará, a história da televisão também se divide em dois períodos: antes da TV Liberal, de Rômulo Maiorana, e após a inauguração da TV Liberal (afiliada da TV Globo).
No fim vamos constatar que apesar dos inúmeros avanços que a televisão paraense sofreu e sofre até hoje perdeu espaço para os programas chamados de enlatados, deu por fim a procura por novos talentos artísticos, reduziu consideravelmente a criação de programas regionais que valorizem o talento e a criatividade local e excluiu da sua grade a produção de novelas feitas aqui mesmo.

Viva! O progresso chegou à capital paraense
O cenário político do ano de 1961 se faz a favor de João Goulart para presidente da república. Aqui no Pará, o governador Aurélio do Carmo tentava reunir representante dos três poderes para discutir o favoritismo da posse de Goulart em Recife. Entretanto, aquele mês de setembro entraria para a história não pelo contexto político e sim pela tão sonhada modernidade que adentrava os lares das famílias paraenses. Uma torre era erguida na capital paraense, mais precisamente na Avenida São Jerônimo (hoje Governador José Malcher), mudava a paisagem da cidade, levando a população olhar para cima – era a torre da TV Marajoara que naquele momento simbolizou soberba, ousadia e o passaporte para a modernidade.
Fazia 11 anos que a TV Tupi havia sido inaugurada no Brasil, mas Assis Chateaubriand, considerado o pai da televisão brasileira, queria expandir a emissora criando Rede Tupi comandada pelo grupo Diários Associados (DA), no qual ele mesmo era dono. Frederico Barata era o superintendente dos Associados na Região Norte do Brasil, coube a ele o papel de sonhar e inaugurar a TV Marajoara – Canal 2.
Em 30 de setembro de 1961, o sonho se tornou realidade a TV Marajoara começou a operar naquele dia. A televisão era tida como o "marco do progresso", ela levava a família paraense o admirável mundo novo. Para Frederico Barata, mais que modernizar a televisão tinha como objetivo ser um veículo de cultura para a cidade, já que a partir daquele momento Belém se igualaria aos mais adiantados centros artísticos do mundo. A atriz Nilza Maria denomina Frederico como o pai da televisão paraense.
"E nas plagas distantes, neste Brasil imenso. Ninguém mais poderá menosprezar a nossa cultura e o nosso desenvolvimento, porque, quando alguém quiser apoucarnos, logo redarguiremos com orgulho que somos uma cidade em tão franco progresso que até televisão já possuímos [...] Está inaugurada no Pará a era da televisão."
(trecho do discurso de Frederico Barata durante a inauguração da TV Marajoara, 30/09/1961)
No ar e ao vivo: O indiozinho tupi
Há quem diga que a televisão cresceu aos moldes do rádio, todavia é preciso muito cuidado ao tentar confirmar isto. O que aconteceu foi que a TV buscou nas rádios, profissionais e artistas que já faziam sucesso e estavam familiarizados com o improviso, assim foi com a TV Marajoara que trouxe da Rádio Marajoara, inaugurada em 1954, uma leva de atores e atrizes, jornalistas e locutores para compor o seu quadro de elenco. Todos passaram por testes feitos por Péricles Leal, primeiro diretor da televisão paraense, que treinou pessoalmente grande parte do elenco e foi um dos mestres que ensinou como se fazer televisão.
Durante os anos em que nós trabalhamos na Rádio Marajoara a gente adquiriu a experiência de interpretar textos ao vivo. Era com aquela responsabilidade de fazer tudo certo, não podia errar porque nós gravávamos ao vivo, então fazíamos tudo com cuidado. Quando eu fui para a televisão, eu já fui unir a experiência que eu tinha da Rádio Marajoara, de interpretar textos, interpretar personagens, ao vivo. Então levei a segurança do meu trabalho, aquela experiência que eu já tinha de compor personagens, já levei para a televisão. Agora naturalmente que muda, enquanto lá você trabalhava com a voz, na TV você tem que ter o cuidado, primeiro, qual a posição que você fica, o ângulo que você vai ser filmado, qual é o momento em que vai apagar, qual é o momento que a câmera está te focalizando... então tudo isso veio juntar uma experiência de leitura de texto com a vivência de personagens.
(depoimento da atriz Nilza Maria feito durante a pesquisa de campo.)
A TV Marajoara adotou a mesma logomarca da TV Tupi – o indiozinho que fazia menção aos índios Tupinambás como forma de identificação da cultura nacional. A programação da Marajoara foi rica e diversificada, ia desde programas de entrevistas até a produção de telenovelas ou teleteatros como alguns preferem chamar. Cláudio Barradas, ator e realizador, que diz que nunca existiu teatro na TV uma vez que o público assistia ao espetáculo em casa e não diante do cenário em que a produção acontecia. Tudo feito aqui, por uma equipe de aproximadamente 100 pessoas, dentre cenógrafos, costureiras e maquiadores.
Na dramaturgia, quatro eram os realizadores: Maria Sylvia Nunes, Raymundo Mario Sobral, Maria Helena Coelho e Valdir Sarubbi. Eles eram os responsáveis por escrever novelas, fazer adaptações de outras obras para a televisão e roteirizá-las. Maria Sylvia comenta que a maior parte dos textos eles mesmo escreviam e/ou adaptavam, apesar de que podia vir obras de qualquer outra emissora da rede dos DA.
A gente se dava o luxo de até fazer experimentos. Eu me lembro que uma vez eu tirei de um livro de Sartré, que era o filósofo da moda naquele tempo, não era um romance era um livro de filosofia, eu tirei um episódio em que ele narra que um rapaz que estava num dilema da seguinte maneira: Durante a ocupação nazista na França, ele não sabia se entrava para a resistência, portanto ia para a ilegalidade, ou se ficava em Paris cuidando da mãe que era velha e estava doente. Então o dilema dele era cumprir o dever de cidadão ou de filho, então isso era um problema, vamos dizer... moral, e eu resolvi fazer todo em close up e detalhe. Nós nem tínhamos cenário porque era todo em close up e detalhe. Ficou ótimo o programa, nós adoramos.
(Relato de Maria Sylvia Nunes feito durante a pesquisa de campo.)
Outra coisa errônea de se dizer é que no início tudo era feito com improviso, pois o improviso existe até hoje, a diferença é que no começo se fazia televisão ao vivo, já que o videoteipe chegou alguns anos depois que a TV Marajoara já estava no ar. Portanto, realizadores e elenco tinham que pensar instantaneamente (improvisar) em como esconder algum imprevisto como, por exemplo, o ator esquecer o texto. Hoje, com exceção dos telejornais, a maioria dos programas são gravados e os erros não entram no ar como no tempo do 'ao vivo', caso a atriz esqueça a sua fala durante a gravação ela conta com o apoio do diretor para gritar "corta!" e voltar a cena de novo. No Pará, a produção local de telenovelas não compõe mais a grade de programação, então o dito improviso fica por conta do apresentador de tal programa e do repórter que entra ao vivo durante alguma externa.
Além da programação normal a TV Marajoara realizava externas com transmissão direta de eventos importantes como o Círio de Nazaré, dada a carência de equipamentos (só tinha um transmissor de microondas) uma equipe se dirigia até a Catedral da Sé fazia a saída da procissão, depois desmontavam todo o equipamento e seguiam direto para o CAN para fazer a chegada da romaria, assim só era transmitida a saída e chegada do Círio. Dentro deste contexto pode-se dizer que a TV Marajoara, laboratório e escola que formou profissionais que vieram a trabalhar nas emissoras que vieram depois, era uma TV artesanal feita praticamente por pessoas altamente gabaritadas e com potencial incrível. O ator e escritor João de Jesus Paes Loureiro, define a TV Marajoara como a "TV em que tudo tinha que ser feito. Era o novo diante da cidade".
"Tudo começou com a ordem de Assis Chateaubriand: 'quero uma TV no Pará, os Associados têm que ser mais uma vez pioneiros'. Frederico Barata, Milton Trindade e Alfredo Sade, trio que formava a direção do grupo no Estado do Pará, não objetaram à ordem do "patrão", e começaram a planejar e trabalhar.
Começou pela construção do prédio e importação dos EUA do equipamento. Simultaneamente, enviaram para a TV Ceará,em Fortaleza, a equipe técnica e de operadores, para cumprirem estágio na co-irmã, recém-inaugurada. Uma vez preparada a equipe volta para Belém a fim de treinar os demais e aguardar a inauguração da TV Marajoara, Canal 2."
(Waterloo Assis. Memória da Televisão Paraense e os 25 anos da TV Liberal, 2002)
Após quase seis anos no ar, em 1967, a TV Marajoara ganhava a sua primeira concorrente no Estado – a TV Guajará. Agora eram duas emissoras que adentravam na casa da família paraense. Além da briga pela audiência, outra nova disputa acontecia na casa dos telespectadores, pai queria assistir a transmissão da TV Marajoara e mãe querendo assisti a nova programação do novo canal e vice-versa. Com apenas uma televisão em casa, como fazer? A publicidade, aproveitando-se desta situação, entrou imediatamente no ar ofertando aparelhos televisores como forma de apaziguar brigas.

Chegou a vez do Saci
A história da televisão tanto brasileira quanto paraense sempre esteve ligada a política. Concessões e propriedades sempre estão entrelaçadas a apoio partidário e apadrinhamento político. A saga da TV Guajará é o maior exemplo disto. Inaugurada em 27 março de 1967, o Canal 4 era propriedade de Lopo de Castro, prefeito de Belém por dois mandatos e várias vezes deputado federal, Devido aos seus compromissos políticos quem assumiu a direção da TV foi sua esposa Conceição Lobato de Castro.
Como na TV nada se cria tudo se copia. O Canal 4 usou como logomarca uma figura do Saci Pererê como forma de exaltar a cultura amazônica e recebeu nome de TV Guajará para homenagear a Baía que fica em frente a cidade de Belém. Entrava no ar às oito horas da manhã enquanto que a sua concorrente, a TV Marajoara, entrava às quatro horas da tarde. O equipamento da TV Guajará era todo nacional, nada veio de fora; telecine, câmeras, monitores e transmissores tudo fabricado no Brasil, pela extinta Maxell.
A Guajará introduziu na história da televisão paraense programas infantis como o 'Capitão Lourenço', apresentado por Kzan Lourenço que se imitava um velho capitão de 70 anos de idade que contava as suas aventuras para crianças que estavam nos estúdios, alguns deste programa chegaram a ser exibidos direto do navio Corveta Iguatemi, da Marinha, que realizava passeios na Baía do Guajará. Na dramaturgia, o destaque foi para as telenovelas globais 'Selva de pedra' e 'Pigmaleão 70' transmitidas pela Guajará.
O Canal 4 pode ter sido a segunda emissora paraense, mas foi a primeira afiliada da TV Globo, que até então só tinha em São Paulo e no Rio de Janeiro. Também foi a primeira emissora paraense a transmitir missa graças a uma autorização de D. Alberto Gaudêncio Ramos, Bispo de Belém na época.
No telejornalismo uma novidade. Em meio a ditadura militar a Rede Globo de Televisão estréia o Jornal Nacional e dentro dele concedia para a TV Guajará um tempo de três minutos para as notícias locais – no Pará, este jornal em formato de lapada era chamado de 'Jornal Nacional Edição Local', apresentado por Carlos Benedito.
Os primeiros seis meses do tempo em que a Guajará transmitia a Globo foi em caráter experimental, Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, hoje falecido, não acreditava ainda na nacionalização das redes de televisão haja vista que cada região tinha a sua cultura e o seu sotaque próprio. Depois disso, o contrato foi firmado por mais seis anos. Quando chegou o período de renovar o contrato de concessão da TV Guajará como afiliada da TV Globo, o então presidente militar Ernesto Geisel pede a não renovação do contrato para Roberto Marinho porque o Canal 4, de Belém, apoiava Jarbas Passarinho com quem ele tinha divergência política.
Sem concessão a TV Guajará passa a ser independente por alguns anos e sobrevive com recursos do próprio Lopo de Castro, até o período em que passa a ser primeira afiliada da TV Bandeirantes que começara a se firmar no sul do Brasil. O andar 25 do Edifício Manoel Pinto da Silva já não suportava mais estruturar uma emissora de televisão, era necessário a compra de novos equipamentos e de um espaço maior. Como a TV Marajoara tinha fechado as portas em 1980, Lopo compra o prédio onde funcionou a sua maior concorrente e instala novos equipamentos.
No entanto, um novo golpe atinge o "Saci Pererê", a TV Bandeirantes corta a concessão da emissora porque emergia no Pará um novo grupo de comunicação que comandada por político influente, que conseguiu tomar da TV Guajará a concessão, inaugurava-se no Pará a TV RBA – Canal 13. A TV Guajará passa a transmitir a extinta TV Manchete, que logo mais tarde fecharia as portas. A TV Guajará acabou sendo vendida para um grupo evangélico que criou a Rede Boas Novas, as negociações começaram em 1993 mas a venda só foi efetuada em 1995.

No ar a TV Liberal: Uma nova televisão para o Pará
A TV Liberal Canal 7 dá início à sua programação inaugural, num acontecimento histórico para a capital paraense pela alta expressão do empreendimento e sua grande repercussão na vida social e econômica do Estado.
(Jayme Bastos. Anuncio de inauguração da TV Liberal, 27/04/1976)
A cidade de Belém parou para assistir a inauguração da TV Liberal, em 27 de abril de 1976. Começa a partir de agora uma nova fase para a televisão paraense. A história da TV Liberal se assemelha a história da TV Globo, ambas dividem, no Pará e no Brasil, a história da televisão, foi a partir delas que o capital estrangeiro entrou nos meios de comunicação de massas, a influencia que elas exercem é tão forte que chega a atingir a quem está no poder. Dentre as autoridades presentes na inauguração da Liberal estava o Ministro das Comunicações Euclides Quandt de Oliveira, que veio representar o presidente Geisel que não pode comparecer, e a alta cúpula da Globo que representavam Roberto Marinho.
O Canal 7 contratou profissionais gabaritados, alguns até da TV Marajoara, como exemplo podemos citar o jornalista Ubiratan de Aguiar, que usa o pseudônimo de Pierre Beltrand. A programação inaugural durou três dias e só a partir de 1º maio daquele ano foi que ela passou oficialmente a transmitir a TV Globo. A história da tecnologia da TV Liberal passa pela era do filme (película), do videoteipe e do satélite. A inauguração e a realização do Canal 7 foi pensado por Rômulo Maiorana, uma das grandes personalidades paraense.
Rômulo Maiorana era chamado de jornalista porque escrevia os seus artigos no jornal, mas ele era um homem de sociedade. Quando você convive no meio social, você articula socialmente as aproximações ou alguém que tem a facilidade de atingir e satisfazer os seus desejos. Ele soube se relacionar socialmente. Rômulo Maiorana foi um homem de classe A e B, nunca foi um homem de classe baixa, então quando ele veio de Pernambuco pra cá, em 1953, ele começou a freqüentar a alta sociedade, Assembléia Paraense, Iate Clube do Pará, então ele soube articular porque ele era um homem empreendedor. Esse mérito ninguém tira dele. [...] Rômulo Maiorana soube se aproximar de Passarinho, Gerson Peres, se aproximar daquela velha guarda da ARENA que hoje está com aquele modelo de PP – Partido Progressista – então esta questão de se aproximar do Regime e se favorecer foi a mesma estratégia usada por Silvio Santos para conseguir a rede dele. Então, Rômulo Maiorana soube, com a sua comunicação, persuadir as pessoas. Era uma cara nova, era um homem que supostamente não tinha ligação política nenhuma.
(relato de Zé Carlos Reis feito durante a pesquisa de campo)
Num pensamento crítico sobre a trajetória da TV Liberal, desde a sua inauguração, até a atualidade, vemos que além de abrir as portas para o capital estrangeiro ela traz como ponto negativo o término da produção local de programas e de telenovelas. A TV Liberal passa a transmitir os "enlatados", nome dado aos programas prontos que vem da rede nacional, deixando apenas o telejornalismo como único setor para se fazer televisão no Estado. Se pararmos para pensar um pouco mais, a TV Liberal não é a única a ter os melhores equipamentos tecnológicos, todas as emissoras devem possuir os melhores recursos, a Liberal apenas deu o ponta-pé inicial para a corrida das inovações tecnológicas.

Morre o indiozinho no Pará
Era o ano de 1980 quando o Governo Militar extingue os jornais e emissoras dos Diários Associados. No Pará, a TV Marajoara saia do ar. Acabava ali o sonho que tinha se tornado realidade, desde então nenhuma emissora de televisão produziu tanto e levou ao ar programas com o mesmo nível de qualidade. A partir daquele momento, os enlatados já ocupavam a maior parte da grade de programação e para os profissionais restavam apenas telejornais.
Eu já não trabalhava lá no dia em que o Governo Federal decretou seu fechamento, juntamente com outras emissoras de TV dos Diários Associados, em razão de problemas diversos que, diga-se de passagem, não ocorriam em Belém. Foi em 16 de julho de 1980 e lembro que estava saindo de casa para participar de dois eventos – a colação de grau em engenharia do meu irmão Celso e a homenagem que seria prestada ao Rômulo Maiorana como empresário do ano – quando ouvi o 'Jornal Nacional' dar a notícia. Foi um verdadeiro soco no estômago. Cheguei a chorar porque um pouco da minha vida tinha sido extinta.
(Abílio Couceiro. Memória da Televisão Paraense e os 25 anos da TV Liberal, 2002)
Mesmo já existindo o videoteipe nesta época, novelas e programas da TV Marajoara que marcaram os "tempos heróicos" da televisão paraense ficaram gravados apenas na memória. A cobertura do Círio, em 9 de outubro de 1961, primeira externa da televisão paraense é um exemplo disso, juntamente com o golpe militar de 1964 que foi noticiado por Abílio Couceiro e também a chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969, transmitida pela Marajoara um dia após o acontecido por causa da pouca tecnologia.

Pierre Show
De todos os programas genuinamente paraense um merece destaque: Pierre Show, apresentado pelo jornalista Ubiratan de Aguiar, que utilizava o pseudônimo Pierre Beltrand. O programa começou na TV Marajoara e depois foi feito na Guajará e posteriormente na TV Liberal. Ubiratan viveu o tempo do improviso, passou do preto e branco para a TV em cores e seu programa foi modelo que a rede nacional copiou. Celebridades nacionais vinham para se apresentar no programa local.
Eu consegui dominar o improviso na televisão porque o meu programa, Pierre Show, na TV Marajoara, durante uma hora, era todo improvisado. De vez em quando dava um apagão, mas eu saía de letra. Eu trazia do Rio e de São Paulo artistas famosos, como o prórpio Roberto Carlos.
Meu programa era aos domingos das nove às dez da noite, nele eu também dava o "notícia da sociedade". Tinha o cineminha do Pierre [...] foi o primeiro programa ao vivo da TV paraense... Então o Pierre Show tinha um aspecto político, artístico e social. Começou do preto e branco e depois passou para o colorido. Agora tem um fato muito interessante, o Pierre Show foi o programa de maior audiência da televisão paraense, por quê? Porque só tinha uma emissora na época, então as pessoas tinham que me assistir.
(depoimento de Ubiratan de Aguiar, recolhido durante a pesquisa de campo)
A espera pela digitalização
A TV paraense vive o advento da internet, ficou mais rápido e mais fácil se fazer jornalismo, contudo um novo formato de televisão deve entrar no ar a partir de 2017: a TV digital que além de melhorar a qualidade de imagem e áudio da TV atual tentará fazer o telespectador interagir de maneira mais eficaz. Hoje, a tecnologia enxuga o que pode o número de profissionais que trabalham fazendo, a inserção de transmissões via satélite possibilitam externas em lugares distante num curto espaço de tempo, 1,5 segundos. Por outro lado, predomina na programação regional a produção da rede nacional o que transformou os produtores de televisão local em consumidores. O centro artístico agora fica no sul do país, excluindo da programação o talento de artistas regionais e reduzindo o número de programas locais.
Para exibir um programa regional a afiliada depende da autorização da emissora nacional. A única emissora paraense que ainda se preocupa em criar programas que valorizem o a cultura do Estado do Pará, sem ser através do jornalismo, é a TV Cultura do Pará – Canal 2, emissora pública do Estado inaugurada em 13 de março de 1987. É no Canal 2 que o programa mais antigo da televisão paraense existe – O sem censura Pará - que está no ar a mais de 20 anos.

Referências Bibliográficas
ORGANIZAÇÕES RÔMULO MAIORANA. Memória da Televisão Paraense e os 25 anos da TV Liberal, Belém – PA, Secult. 2002
Documentário Televizinha, Belém – PA. 2009.
AGUIAR, Ubiratan de. Idas e vindas – Fiéis relatos sobre fatos e pessoas. Gráfica Sagrada Família, Belém – PA. 2005.
Coleta de dados e pesquisa de campo realizada pela equipe, entre os dias 24 de abril de 2009 e 22 de maio de 2009. Entrevistados para este trabalho: Maria Sylvia Nunes, João de Jesus Paes Loureiro, Nilza Maria, Pe. Claudio Barradas, Zé Carlos Reis. Visita técnica a TV Cultura do Pará em 21 de maio de 2009.

07/12/2009

Belém em Ação?

Belém vive um momento de desenvolvimento por meio de projetos voltados para o reordenamento do trânsito e drenagem da cidade. São obras de infraestrutura que buscam criar vias alternativas para a circulação de veículos e escoamento de tráfego, evitando assim os conturbados engarrafamentos que a população vive a qualquer hora do dia principalmente se tiverem que passar pelo Complexo Viário do Entroncamento, limite entre os municípios de Belém e Ananindeua.

Em janeiro deste ano, a capital paraense foi sede para o Fórum Social Mundial e para receber as mais de 120 mil pessoas de 80 países o governo anunciou inúmeras obras que iriam melhorar a cidade – o que iria contribuir para a qualidade de vida da população. Pois bem, muitas destas obras não foram concluídas enquanto outras nem sequer saíram do papel.

A duplicação da Avenida Perimetral foi uma destas obras prometidas e não concluída, apenas a revitalização do Terminal de Passageiros da Universidade Federal do Pará e os 1,5 km de via em torno dele foi o que ficou pronto. O restante da avenida, cerca de 4,5 km, não foi duplicado e nem a ciclovia foi feita.

A Companhia de Habitação do Estado do Pará (Cohab) foi o órgão estadual responsável pela obra, na época em que começaram as obras o presidente da Cohab, Geraldo Bitar, anunciou que seria necessário remover um total de 209 famílias para outras áreas para que a duplicação da Avenida fosse feita, elas teriam duas opções: receber uma indenização pelo imóvel ou aguardar, com aluguel pago pelo governo, a construção de condomínio residencial com mais de dois mil apartamentos no bairro do Guamá.

Esta primeira etapa custou R$ 19.357.284,18 e a obra completa tinha o orçamento de 60 milhões de reais. A duplicação da Avenida Perimetral inclui a criação de uma ciclovia e uma passagem subterrânea na travessa Mariz e Barros com Av. Almirante Barroso.

Planejamento

Com o Ação Metrópole, empreendimento do Governo do Estado com uma pequena participação da Prefeitura Municipal de Belém, a duplicação da Av. Perimetral volta ser discutida, não somente ela como também a extensão da Av. João Paulo II, que corta a Perimetral, e a extensão da Av. Independência até a Av. Júlio César.

Questionado sobre o porquê a duplicação da Av. Perimetral não ter saído em janeiro quando anunciada o Coordenador de Planejamento do Ação Metrópole, Paulo Silveira, explica que um novo planejamento está sendo discutido para o projeto, a estimativa é que a obra comece a partir de maio de 2010, período previsto para começar a 2ª etapa do projeto que está avaliado em 189 milhões. Não se sabe ao certo se alguma família ou quantas famílias terão que ser removidas da área para que o projeto seja executado.

Visto de outra forma a segunda etapa do Ação Metrópole irá concluir, na verdade, obras que já deveriam estar prontas. No caso da duplicação da Perimetral que prevê a construção de um túnel na Trav. Dr. Freitas com Av. Almirante, o túnel já deveria ter sido implantado no mesmo período em que foi construído um viaduto no local. Paulo Silveira explica que na época o projeto do túnel ficou inviável devido a tubulação antiga do sistema de abastecimento de água de Belém. "Agora faremos um túnel mais fundo para que não mexamos na rede de abastecimento", esclarece o coordenador.

Junto com o túnel o projeto pretende prosseguir com a extensão da Av. João Paulo II até a Rodovia BR – 316, que desde a gestão do ex-prefeito de Belém, Edmilson Rodrigues, não foi concluída.

“Bené” por outros

O debate durou um ano, teve início em 2006 quando um suposto filósofo de nome João Emiliano, criou o tópico, num site de relacionamento, em que perguntava se alguém sabia a razão de Benedito Nunes ser ateu. Alguns fãs do Benedito entraram no debate para saber qual o fundamento desta pergunta e, logo em seguida, João se defendeu dizendo que estaria escrevendo a biografia do filósofo paraense. O diálogo foi pesado, com trocas sutis de ofensas e a principal defensora do intelectual paraense foi a pesquisadora Melina Eleres que disse que quanto menos religioso é um sábio melhor é a sua observação de mundo para elaborar seus pensamentos e filosofias.
Quando soube da existência do debate virtual a reação de Bené – como gosta de ser chamado pelos amigos - não foi outra se não sorrir. Melina disse que não esperava outra reação do intelectual a não ser esta, afinal uma discussão como esta não iria incomodar o filósofo e literário, professor e ensaísta Benedito Nunes, fundador da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará. O debate questionou verdades escritas na bíblia e quem foi Jesus Cristo, incluindo o que ele fez para humanidade.
Mais interessante que discutir a religiosidade ou o currículo do Bené é perceber a importância de sua obra para a humanidade. Seu alto grau de conhecimento lhe permite ter uma visão de mundo peculiar, poucos críticos analisam de maneira filosófica uma obra literária, por exemplo. Aliás, ele mesmo diz que a sua origem foi na literatura, mais precisamente em 1965 com a obra O mundo de Clarice Lispector. Dele podemos aproveitar os ensaios, a visão filosófica de como estudar o mundo, a escrita e a até mesmo a linguagem de outros intelectuais.
Ao todo foram 13 livros escritos e publicados, um deles intitulado 'Filosofia Contemporânea' foi atualizado, recentemente, para uma nova edição, o que comprova que mesmo aos 80 anos de idade Benedito não deixou de estudar - um exemplo que deveria ser seguido – daí o motivo dele chegar a esta idade com a mente lúcida. "Ao mesmo tempo em que leio muitas coisas releio outras. Eu leio porque a curiosidade não cessa, o dia que cessar é porque morri", brinca o escritor.
Há quem diga que tanto conhecimento teria apagado a humildade da vida de Benedito Nunes, muitos estudantes já tentaram entrevistá-lo para a produção de algum trabalho acadêmico e pouco já conseguiram este feito. Mas durante uma conversa informal é possível descobrir porque ele se nega a falar de sua obra ou de vida ou de algum amigo. Certa vez, um grupo de estudantes o procurou para que ele desse um depoimento sobre Mário Faustino, outro poeta, crítico e ensaísta, também jornalista, porém ele se negou a falar do seu amigo. A justificativa foi muito simples:
- Não se pode falar da vida de um poeta sem antes conhecer a sua obra. Não gosto que venham aqui esperando que eu conte tudo.
Isto nos faz perceber que Bené prefere discutir idéias e pontos de vista diferentes, tá explicado o porquê faz cara feia quando lhe perguntam o óbvio. Benedito Nunes não só estudou e escreveu sobre Sartre como também foi amigo pessoal dele e de tantos outros filósofos e escritores. Sem bajulações Benedito Nunes é um exemplo no qual todos nós deveríamos nos espelhar, chegou aos 80 anos de idade e ainda se julga um eterno estudioso, sempre está lendo sobre filosofia, literatura e atualizando aplicações de ensinamentos de vários filósofos.
Ele também é um dos poucos intelectuais homenageados ainda em vida. Só agora pelo período de seu aniversário, celebrado no último dia 21 de novembro, participou de quatro eventos que o homenagearam, dois em São Paulo, um no Rio de Janeiro e outro em Belém.

30/11/2009

Agora na versão 2.4

Cheguei a idade em que todos brincam ser a da dúvida... 24 anos. Então eu quebrei o protocolo estou completando a nova idade estando cheio de certezas. Certo de que escolhi a profissão perfeita para mim, certo de que tenho uma mamusca maravilhosa ao meu lado, certo de que meu papusco foi sem dúvidas um grande mestre em minha vida, certo de que amo a minha irmusca, certo que por onde passo faço amizades verdadeiras e o mais certo de tudo: ainda tenho muito o que melhorar enquanto profissional jornalista e como pessoa.
Além de vida e saúde, ganhei festa surpresa na redação (obrigado, Manoela!) e o orkut bombou com centenas de recados.
Quero aproveitar a minha versão 2.4 para investir ainda mais em mim, preciso melhorar a minha dicção, meu timbre e a minha respiração, tudo para interpretar melhor os offs. Meu salário já está destinado a melhorar o meu guarda-roupa, afinal repórter de TV tem sempre que estar bem vestido.
Parece pouco, né?
Mas dá um trabalho... e precisa de grana! No mais, quero melhorar em outras coisas também, mas elas estão em segundo plano.
Agora é só aproveitar a idade nova.
"Deus te dê em dobro tudo o que me desejares!"